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Monday, June 27, 2016

Reino Unido de Mala Feita para fora da União Europeia

Boa tarde a todos,

Sei que hoje não é quinta-feira mas temos sido tão bombardeados com perguntas e comentários a cerca do Brexit que decidimos escrever um artigo sobre aquilo que se passa e aquilo que é a nossa realidade.

Muitas pessoas nos perguntam como temos sido tratados após o resultado do referendo. A resposta é: Nada mudou! Sempre fomos bem tratados e continuamos a sê-lo. Vivemos numa zona em que a maioria das pessoas votou para ficar (St Albans - 62,7%; Londres - 75,3%) por isso nunca sentimos a ira dos apoiantes do "Leave".



O dia de sexta-feira foi um dia muito pesado no escritório onde trabalho. Todos os meus colegas, nomeadamente os britânicos, estavam certos da vitória do "Remain" e o choque da vitória do "Leave" foi devastador. Todos tinham um semblante pesado, estavam chateados, apreensivos, desmotivados e a cima de tudo sentiam vergonha da ignorância, preconceito e estupidez dos seus conterrâneos. Muitos vieram pedir-me desculpa pelos resultados e a maioria procurou incessantemente, durante todo o dia, uma forma de anular o resultado do referendo. Até se falou de uma junção de Londres e Escócia como um novo país membro na união europeia. Escusado dizer que não foi um dia muito produtivo!


Uma coisa é certa! Todos estavam e continuam a estar devastados. Estão irremediavelmente desapontados com os resultados. Todos lastimam as mentiras vendidas pela campanha do "Leave" (que se confirmam agora serem absolutas mentiras, como investimento de milhões no Sistema Nacional de Saúde), mentiras essas que levaram a esta decisão infundada. Muitos afirmam ainda que este referendo nunca devia ter existido porque o povo britânico não estava preparado para tal.  


Contudo, nem tudo é cinzento. Esta foi a mensagem deixada por Sadiq Khan , o Mayor de Londres, após os resultados do referendo:

"I want to send a clear message to every European resident living in London - you are very welcome here. As a city, we are grateful for the enormous contribution you make, and that will not change as a result of this referendum.

There are nearly one million European citizens living in London today, and they bring huge benefits to our city - working hard, paying taxes, working in our public services and contributing to our civic and cultural life.


We all have a responsibility to now seek to heal the divisions that have emerged throughout this campaign - and to focus on what unites us, rather than that which divides us."


Deixo-vos ficar algumas informações úteis, consequências e curiosidades em relação a este resultado:

- O referendo não é vinculativo, é apenas consultivo, por isso tudo pode acontecer (como se diz em bom português, ainda a procissão vai no adro!);

- Nigel Farage (uma personagem odiada por muitos), declarou o dia 23 de Junho como o dia da independência (santa ignorância!);

- Escócia quer novo referendo para sair do Reino Unido (62% da Escócia votou para permanecer na União Europeia);

- Espanha exigirá soberania partilhada sobre Gibraltar (que votou "Remain");

- A libra hoje está a 1,21€;

- Existem algumas petições a circular pela Internet para que exista um segundo referendo (assinar aqui);

- O primeiro ministro anunciou a sua demissão com efeito em Outubro deste ano e anunciou ainda que não irá iniciar os mecanismos necessários para a saída da UE (artigo 50 do tratado de Lisboa). Estes mecanismos serão accionados pelo sucessor de David Cameron, seja ele/ela quem for; 

- Após a invocação do artigo 50 do tratado de Lisboa, levará aproximadamente 2 anos atá à saída definitiva da UE (ou seja, para já, não há razão para pânicos infundados);

- Têm sido registados alguns actos de violência física e verbal contra alguns imigrantes após o resultado do referendo. Tenho conhecimento de uma enfermeira espanhola que foi agredida verbalmente num autocarro no centro de Londres;

- Donald Tusk, Jean-Claude Juncker and Martin Schulz (presidente do conselho Europeu, presidente da comissão e do parlamento, respectivamente), lamentam a situação mas solicitam a acção imediata dos lideres do Reino Unido tendo em vista a saída da UE;

- Apesar de muito se falar em dinheiro mal investido na UE, o maior motivador dos votos para sair foi a imigração;

- Os bancos estrangeiros sediados em Londres estão a activar os seus planos de contingência;

- 7% dos indivíduos que votaram para sair lamentam agora o seu sentido de voto;

- Dia 2 de Julho vai existir uma marcha contra o Brexit "March To Parliament Against Brexit".



Quem ainda está em convalescença encontra a solução em St Albans. Um dos restaurantes locais brincou com a situação e chamou ao seu estacionamento "Post Referendum Recovery Center".



Aconselho também a leitura deste artigo interessantíssimo do Independent!


Espero que este artigo vos sossegue de alguma forma! Vamos acompanhar as notícias e aguardar calmamente que tudo se desenrole com naturalidade. 


Quinta-feira temos o artigo de follow up ao "Negócios Portugueses no Reino Unido", fiquem atentos! 

Thursday, February 25, 2016

Novo acordo com a Comunidade Europeia - Qual o impacto para nós?

Boa tarde a todos,


Nos últimos dias temos recebido inúmeras questões e comentários a cerca do novo acordo entre David Cameron e a União Europeia. Instalou-se o caos nas redes sociais e este tem sido assunto para muitas discussões. Como tal decidimos recapitular os acontecimentos e sistematizar quais as possíveis consequências para quem vive por cá.

Acordo entre Reino Unido e a União Europeia:


Após dias de negociações em Bruxelas (com direito a pequeno-almoço, almoço, jantar e aparentemente relações entre diplomatas para apimentar ainda mais o dia), David Cameron saiu vitorioso com um acordo que evidencia a posição especial que o Reino Unido ocupa no panorama europeu. 



O acordo prevê: 


- Corte dos benefícios para filhos de imigrantes que vivem fora do país - aplicável imediatamente para novas chegadas e, a partir de 2020, para os 34 mil requerentes já existentes; 


- Emendas em tratados da UE para deixar claro que o requisito de uma união cada vez mais próxima entre si "não se aplica ao Reino Unido"; 


- Uma "interrupção de emergência" aos benefícios concedidos a trabalhadores durante os seus primeiros 4 anos no país. Esta media pode ser aplicada durante 7 anos consecutivos (sem necessidade do consentimento de outros estados membros), se esta medida não for prorrogada o Reino Unido deixa de a poder aplicar; 

- Autorização para que o Reino Unido tome medidas de segurança de emergência para proteger Londres.


Ou seja, subsídios para quem vem ao Reino Unido apenas para o nascimento dos seus filhos e voltam posteriormente para o seu país de origem deixam de existir, assim como prestações sociais e habitação social para quem acaba de chegar. Sinceramente são medidas que não me chocam porque não prejudicam quem trabalha de forma legar e honesta. Isto complica a vida a quem vem para cá apenas em busca de apoios sociais e não quem vem para viver e contribuir para o crescimento do país. 




Referendo de 23 de Junho de 2016:

A par do anúncio do acordo selado com a União Europeia, David Cameron anunciou também que o referendo ("O Reino Unido deve permanecer como membro da União Europeia?") terá lugar dia 23 de Junho, quinta-feira. 

Neste momento sabemos que o David Cameron apoio o "SIM" (ficar na União Europeia) e Boris Johnson apoio o "NÃO" (saída da União Europeia). 

Boris Johnson, o mayor de Londres conhecido pela sua cabeleira loura desalinhada, decidiu apoiar a Brexit (Brexit = Britain + Exit) o que coloca uma grande pressão em David Cameron e no partido do qual ambos fazem parte visto que ambos são conservadores. Tal como Boris Johnson, muitos outros ministros anunciaram o apoio ao "NÃO" (saída da União Europeia) o que está a deixar muitos imigrantes preocupados com o seu futuro neste país. 

O Reino Unido não faz parte do espaço Schengen (espaço de livre circulação) o que complica a situação para os imigrantes europeus. Contudo, alguns especialistas indicam que caso o Reino Unido saia da União Europeia mas se mantenha no Espaço Económico Europeu, os imigrantes europeus não serão afetados (isto é o que acontece com a Noruega que não é membro da União Europeia mas faz parte do Espaço Económico Europeu).

As consequências para quem já cá vive relativamente a uma potencial saída ainda são incertas. Na minha opinião, mesmo que o Reino Unido saia da União Europeia não significa que no dia seguinte nos coloquem a todos num autocarro e nos mandem para Portugal! Quem tem contrato de trabalho não tem de perder horas de sono (pelo menos para já!). Certamente que haverão burocracias e assuntos a tratar mas a nossa permanência aqui não será impedida porque o país precisa de nós para funcionar (caso contrário as nossas empresas não nos teriam contratado). Aconselho-vos a terem espírito crítico quando lerem opiniões nas redes sociais, há muita gente pouco informada a lançar o pânico e a pintar cenários terríveis, quando na verdade ainda nada está decidido. 


Uma coisa é certa, ninguém nos tem cá por especial favor. Se moramos cá legalmente, com contrato de trabalho e sem esquemas para ter benefícios aos quais não temos direito, estamos a contribuir para a economia e para o desenvolvimento do país. Para além disso, eles também precisam que os seus cidadãos se movimentem livremente pelo espaço europeu, visto que muitos deles também vivem e trabalham além fronteiras. Dificultando a nossa permanência aqui também dificulta a permanência dos emigrantes de cá nos países onde se encontram. 


Outro ponto importante é que mesmo que saiam da União Europeia isso não é um processo automático, não entra em vigor logo no dia seguinte. As fronteiras não fecham imediatamente! Caso aconteça vai ser um processo demorado, os termos têm de ser discutidos e negociados. Portanto quem pretende vir para cá viver até ao final do ano, em princípio, poderá fazê-lo não obstante do resultado do referendo.



Ou seja, quem já cá vive e tem contrato de trabalho pode estar relativamente descansado. Quem pretende vir para cá no futuro é que poderá ter a sua vida dificultada caso o "NÃO" ganhe. Obviamente que há a possibilidade vir para cá já com contrato e visto de trabalho mas sabemos que não é essa a realidade para a maioria dos imigrantes. Eu vim para cá sem trabalho e procurei depois de cá estar, todos sabemos que assim é bastante mais fácil.

Caso o Reino Unido saia efetivamente da União Europeia as consequências para quem cá vive são incertas por isso nada como nos mantermos informados! Para já vamos todos ficar tranquilos porque nada está decidido! 



Eu estou receosa quanto ao referendo (acho que há uma grande possibilidade do "NÃO" ganhar, mas mesmo que ganhe acho que se vão manter no Espaço Económico Europeu), já o Zé está certo que o Reino Unido não vai sair da União Europeia. E vocês, qual a vossa opinião quanto ao que aí vem?